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Técnica faz história na Copinha e desabafa: "O preconceito me fortalecia"

Recentemente Nívia de Lima fez história com a Chapecoense: ela foi a primeira mulher a vencer como técnica na Copinha masculina, a principal competição das categorias de base do Brasil. Mas no passado, Nívia sofreu preconceito. E usou isso como motivação para evoluir e chegar mais longe.

"Antes de ver o profissional, as pessoas julgam o gênero. É como se a mulher não soubesse o que está fazendo. Então eu sempre tive na cabeça que precisava provar mais do que todo mundo. E isso não é se vitimizar, porque o preconceito me fortalecia. Eu sempre tinha que provar mais", contou Nívia.

Nívia foi jogadora e, quando resolveu virar técnica, em 2012, sofreu preconceito logo de cara, na primeira experiência. Ela tinha sido contratada por Sandro Luiz Pallaoro - presidente histórico da Chapecoense que morreu na tragédia de 2016. Mas quando Nívia começou a treinar jovens da escolinha de futebol da Chape, foi rejeitada.  

"Mesmo eu sendo formada, as pessoas não aceitaram uma mulher treinando os filhos deles. Até me emociono um pouco de falar sobre isso. As pessoas foram na Chape e falaram para o presidente que não queriam um filho treinado por uma mulher. E o Sandro pediu que não me julgassem pelo gênero, que deixasse eu trabalhar e que, se eu não conseguisse mesmo, eles iam me tirar. Mas que desse um tempo para eu trabalhar", contou Nívia.

Inicialmente Sandro não contou sobre isso para Nívia. E ela entende que essa "blindagem" foi importante, pois na época não estava tão preparada para enfrentar esse preconceito. E deu certo: "Os mesmos pais que pediram para que eu saísse foram os mesmos que pediram desculpa, porque eu era uma baita profissional".

Logo Nívia começou a trabalhar nas categorias de base mais competitivas, a partir do sub-12. Primeiro foi colocada só como assistente, para diminuir a resistência contra ela. E aos poucos subiu de categorias até chegar no sub-20, no ano passado.

Com tanto tempo de casa, Nívia se sente respeitada na Chape. O problema é fora do clube: "O preconceito vem realmente do ambiente externo. São comentários nas redes sociais. Às vezes de pessoas indo no estádio, te agredindo com palavras. 'O que é que essa mulher tá fazendo aí? Ela não sabe de nada'. Então há um preconceito muito grande no lado externo".

Inspiração em Muricy Ramalho

Questionada sobre as principais referências na profissão, Nívia citou Muricy Ramalho e lembrou que já recebeu uma mensagem do ídolo do São Paulo.

"No começo da minha carreira, eu me inspirava muito no Muricy. Eu tinha essa questão do 'trabalho'. Até o Muricy mandou uma mensagem para mim na época", lembrou ela.  

No vídeo, Muricy incentiva Nívia a seguir em busca do sonho de virar técnica. Ela conta que chorou de emoção e seguiu em frente. Buscou cada vez mais qualificações: já tem quase todas licenças para trabalhar no Brasil (está inscrita para conseguir a última) e conseguiu a primeira da Uefa, em Portugal. Aos 44 anos, ela diz que se inspira em diferentes estilos de jogo.

"Hoje a gente tem várias referências como técnico. Tem o Abel. Eu gosto muito Fernando Diniz. Cada treinador tem seu jeito e a gente vai tentando trazer aquilo que a gente acredita. A técnica Nívia, se você for ver uma equipe dela jogando, tem uma equipe corajosa para jogar, propositiva, que gosta de ser protagonista no jogo. Na base a gente tem que encorajar os meninos. E é uma equipe que tem uma alma muito grande para marcar forte, com agressividade na organização defensiva", explica Nívia.

Futuro da Nívia e das mulheres

Nívia não foi a primeira mulher a ser treinadora na Copinha masculina. Nilmara Alves treinou o Manthiqueira em 2017 e teve 3 empates e uma derrota. O futebol de base pode ser um bom caminho de entrada para as mulheres no futuro.

"Eu gostaria muito que isso virasse uma tendência e fosse mais normal. Espero que as mulheres se encorajem e que os clubes deem oportunidades. A mulher tem um lado mais sensitivo e também se qualifica. Juntando essas duas coisas, a parte sensitiva e a qualificação, não tem como dar errado", torceu Nívia.

Sobre o futuro da técnica Nívia, a ambição é quebrar novos recordes: "Penso em estar mais um tempo no sub-20, mas almejo mesmo treinar uma equipe profissional, estar na Série A, a longo prazo, e também trabalhar fora do país. Estou me qualificando".

Novos recordes esperam por Nívia.

Fonte: Band.
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