O número de brasileiros que dependem do trabalho por aplicativo como principal fonte de sustento cresceu 18,6% em 2025, impulsionado pela busca por flexibilidade de horários e pela necessidade de complementar a renda familiar. O levantamento, baseado em dados do IBGE, revela que essa foi a única ocupação a registrar um crescimento de dois dígitos no período.
O cenário, no entanto, expõe uma dualidade marcante entre a autonomia dos profissionais e a ausência de garantias asseguradas pela CLT, desafiando o futuro da previdência social no país.
Atrativo financeiro e flexibilidade de horários
Para muitos trabalhadores, o ingresso nas plataformas digitais representa uma oportunidade ágil de garantir rendimentos sem as amarras de um emprego tradicional. A flexibilidade de definir a própria rotina diária e a rapidez em receber os pagamentos são os principais diferenciais da modalidade.
- Renda complementar: Hugo utiliza o aplicativo para reforçar o orçamento. Ele trabalha oito horas aos sábados e mais oito aos domingos, afirmando que já não consegue ficar sem esse dinheiro, embora ressalte que o ganho por corrida muitas vezes fica abaixo de R$ 1.
- Autonomia no dia a dia: Sebastião, que divide seu tempo como entregador e atleta, destaca a facilidade de organizar sua própria escala para conciliar os treinos e compromissos.
- Aumento de faturamento: Gabriel, ex-controlador de acesso que atua com entregas por aplicativo há cinco anos, relata que passou a faturar o dobro do que ganhava anteriormente e agora consegue se planejar para passar mais tempo com a família.
A ausência de direitos e a redução de custos das empresas
Apesar de vantajosa sob a ótica da liberdade de horários, a proliferação das plataformas de transporte e entrega acentua a discussão sobre a precarização trabalhista. O avanço da tecnologia e da mecanização nos setores de comércio, indústria e serviços tem levado contratantes a priorizar a redução de custos operacionais.
Para as empresas, esse modelo de contratação elimina as obrigações e encargos previstos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Na outra ponta, o trabalhador assume integralmente os riscos da atividade, sem direito a benefícios fundamentais como:
- Férias remuneradas;
- Décimo terceiro salário;
- Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).
Economista alerta para o "risco previdenciário"
Diante da falta de uma rede de proteção social, especialistas recomendam atenção redobrada com o planejamento financeiro para o futuro. O principal ponto de preocupação é o chamado risco previdenciário.
A falta de contribuição regular para a Previdência Social pode inviabilizar o acesso a uma aposentadoria digna no futuro. Sem recolhimento de taxas, esses profissionais correm o risco de receber apenas o piso salarial mínimo, conseguir o benefício exclusivamente por idade avançada ou, no pior dos cenários, ficar desamparados e dependentes de programas de assistência social do governo.