Representantes dos setores industrial e comercial desembarcaram em Brasília nesta terça-feira (26) para uma série de reuniões com o objetivo de negociar alterações na proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6x1. A principal demanda da comitiva é o adiamento da votação do projeto no Senado para depois do período eleitoral, além de um prazo de transição mais longo para a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais.
O acordo, costurado entre o governo federal e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), causou surpresa tanto no setor produtivo quanto em senadores de partidos do "centrão". A proposta original estabelece uma redução gradual, com diminuição de duas horas na jornada 60 dias após a promulgação, seguida por uma nova redução de duas horas um ano depois, garantindo a carga horária de 40 horas semanais sem a redução dos salários.
Impacto nos preços e no setor produtivo
A principal preocupação dos empresários é o impacto direto no custo da mão de obra, que, segundo o setor, deverá ser repassado ao consumidor final, gerando aumento de preços. Durante as articulações no Senado, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, destacou a necessidade de serenidade no debate. "As pessoas que discutiram esse projeto não conhecem a realidade do Brasil, fizeram de forma açodada, pensando só em eleição", afirmou Skaf, defendendo que o tema não seja tratado com pressa.
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, reforçou o coro contrário à celeridade da tramitação. Para Alban, a mudança não pode ser imposta por decreto ou assinatura sem considerar o planejamento estratégico das empresas, especialmente das pequenas e médias. "Como é que vai ficar a pequena e a média empresa? Não é por decreto que você vai melhorar a situação econômica e social de um país", pontuou Alban.
Pressão em Brasília e posicionamento de Lula
Enquanto o setor produtivo busca frear a votação no Senado, a Câmara dos Deputados mantém o cronograma de urgência. A expectativa é que o projeto seja analisado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) já nesta quarta-feira (27), com possibilidade de seguir para o plenário no dia seguinte.
Em evento realizado em Manaus, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou seu apoio à medida. Em seu discurso, o mandatário defendeu o descanso semanal remunerado de dois dias, enfatizando a sobrecarga enfrentada pelas trabalhadoras brasileiras. "A mulher trabalha e quando chega em casa tem que lavar louça, lavar o banheiro, lavar roupa. A mulher tem dupla jornada", declarou Lula.
No entanto, o clima entre os senadores aponta para um embate. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tem sinalizado a aliados que não pretende ceder a pressões do governo para agilizar o texto sem o devido debate, indicando que o cronograma final da proposta ainda enfrenta barreiras políticas significativas.