Cuidar de quem já não pode mais exercer a própria autonomia, seja pela idade avançada ou por doenças degenerativas, é uma realidade que atinge milhões de lares brasileiros. Segundo dados do IBGE, em 80% dos casos, essa responsabilidade recai diretamente sobre os familiares.
A rotina de quem assume essa missão exige dedicação integral e, muitas vezes, a renúncia de projetos pessoais e profissionais. O cenário é impulsionado pelo envelhecimento da população, o que demanda cada vez mais pessoas dedicadas ao suporte doméstico.
Cuidado que supera a separação
No bairro da Brasilândia, zona norte de São Paulo, a história de Fernando e Maria Antônia exemplifica como os laços afetivos superam as convenções. Casados por 26 anos, eles se separaram, mas a vida mudou quando ela foi diagnosticada com Alzheimer aos 54 anos.
Mesmo não sendo mais um casal, Fernando assumiu o papel de cuidador principal. Ele mora na parte de baixo do sobrado construído por ambos e ela na parte de cima. Diariamente, ele prepara as refeições e garante todo o suporte necessário.
"Mudou totalmente. Ela era alegre, comunicativa. Do nada, começou a se fechar", relembra Fernando. Para ele, a decisão de cuidar é fundamentada no amor. "Mesmo separado, eu gostaria que ela fosse aquela mãe brincadona com os filhos. Dói bastante", desabafa.
A jornada feminina e a abdicação
Apesar de casos como o de Fernando, a estatística mostra que o cuidado está predominantemente nas mãos das mulheres. É o caso de Neide, que transformou sua rotina para amparar o marido, Seu Expedito, que sofreu um AVC após conviver anos com a cegueira.
Para cumprir o que define como missão, Neide desfez-se da casa e da pequena empresa que o casal possuía. Hoje, vivem com o valor da aposentadoria em um quarto adaptado. "Parei para poder cuidar dele", resume a cuidadora.
Neide também estende sua ajuda à vizinha, Dona Bete, que teve uma perna amputada. A rede de apoio mútua e as terapias têm sido fundamentais para que ela consiga enfrentar o desgaste emocional e físico da função.
Desafios financeiros e emocionais
A rotina de cuidados domiciliares impõe restrições severas. Sem o aporte de profissionais, os familiares precisam aprender sozinhos tarefas de saúde e nutrição, adaptando a estrutura física da casa sem auxílio externo.
Neide reflete sobre a realidade onde a dedicação supera a falta de recursos: "O que sobra aqui é muito amor. Dinheiro não sobra, mas também não falta".