A cerca de 20 dias do primeiro turno das eleições 2026, o cenário político nacional apresenta uma disputa acirrada, marcada pela escassez de propostas concretas e pela predominância de denúncias e ataques, é o que aponta Murilo Hidalgo, diretor-presidente do Instituto Paraná Pesquisas.
De acordo com o especialista, o desinteresse por propostas reais e a polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) converteram a decisão das urnas em um movimento defensivo. "60% dos eleitores de Flávio e de Lula o principal motivo para votar neles é para o adversário não ganhar as eleições", afirmou Hidalgo.
Polarização consolidada e empate técnico
As levantamentos do Instituto Paraná Pesquisas indicam uma corrida presidencial rigidamente empatada. Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro ostentam bases eleitorais altamente fiéis. Cerca de 90% dos eleitores de ambos declaram que não mudarão de voto até o dia da eleição, o que torna a migração direta de votos entre os dois polos praticamente inviável.
Além disso, os índices de rejeição das duas lideranças são quase espelhados. Ambas as candidaturas registram cerca de 46% de rejeição junto ao eleitorado brasileiro, afirma Hidalgo. Esse patamar elevado faz com que eventuais simulações de segundo turno apontem empate técnico, onde qualquer candidato alternativo que chegue à etapa final também já larga com cerca de 45% do eleitorado, impulsionado unicamente pela rejeição ao rival.
Perfil dos indecisos e ameaça da abstenção
Com o eleitorado polarizado e fixo, restam apenas 6% de eleitores indecisos. No entanto, Hidalgo aponta que esse contingente não está em busca de uma opção, mas sim profundamente desmotivado com o quadro geral do país e com a sucessão de escândalos.
Essa apatia coloca a abstenção eleitoral como um dos fatores decisivos do pleito. Para o analista, o grande desafio das campanhas na reta final não é apenas convencer novos eleitores, mas garantir que a sua própria base compareça às urnas. O candidato que melhor conseguir mobilizar seus apoiadores contra a abstenção poderá se beneficiar diretamente.
Economia e segurança pública
Embora a pauta das campanhas esteja centrada em denúncias, as pesquisas de opinião mostram que as preocupações reais do cotidiano do cidadão passam longe da troca de acusações. As maiores preocupações do eleitorado no momento são:
- Segurança pública;
- Endividamento das famílias;
- Custo de vida e preço dos alimentos no supermercado.
A comunicação com a população sobre esses temas impõe desafios distintos para o governo e para a oposição. No debate econômico, a oposição costuma levar vantagem estratégica por atuar como "a pedra", enquanto o presidente Lula atua como "o vidro", precisando defender suas realizações e convencer o eleitor de que é capaz de resolver problemas do bolso.
Crise no STF inflama a disputa pelo Senado
A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) emergiu como um dos elementos de maior impacto sobre o eleitorado, superando até mesmo a atenção dada a denúncias individuais. Esse cenário alterou drasticamente os rumos da eleição para o Senado.
O debate sobre o papel do STF reanimou as redes sociais dos candidatos a senador e trouxe ao centro da pauta discussões sobre apoio ou impeachment de ministros da Corte. Essa pauta atrai tanto o eleitorado de Lula quanto o de Flávio --cada um sob sua perspectiva--, aprofundando a polarização na escolha das duas vagas ao Senado em disputa este ano.
Por fim, as eleições proporcionais para a Câmara dos Deputados e Assembleias Legislativas costumam ganhar tração e definição popular apenas nos últimos 15 dias de campanha, momento em que o eleitor passa a dedicar atenção real à renovação do Congresso Nacional.